Entre um relincho e um cacarejar

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Mauro Loureiro recomenda a criação de aves Índio Gigante e ressalta a importância dos cuidados para com os animais

Criadores de cavalos têm investido no promissor mercado de aves Índio Gigante. Entenda a relação entre as duas atividades e saiba mais sobre a nova febre do Agronegócio brasileiro

As aves Índio Gigante (IG) têm como Berço os Estados de Goiás e Minas Gerais (anos 70 e 80). Mas foi por volta de 2000 que a raça se destacou nacionalmente, em paralelo à disseminação da internet no Brasil. Hoje, a criação está em quase todas as regiões do país. Os atrativos e os potenciais econômicos são: docilidade, facilidade de manejo, baixo custo de manutenção, produção de carne nobre e ovos de alto valor agregado. Com a popularização das redes sociais, os galos e as galinhas de tamanho avantajado ganharam fama, tornando-se as novas vedetes do Agronegócio brasileiro.

“Para se ter uma ideia do potencial do mercado, eu larguei mão de trabalhar com pecuária bovina de corte na divisa entre Rondônia e Amazonas para me dedicar ao Índio Gigante”, diz Pedro Ribeiro, do Criatório Ribeiro, em Guaxupé/MG, um dos maiores conhecedores da raça. “Aos 21 anos, eu saí de Minas Gerais e fui tentar a vida na região Norte. Numa das visitas aos meus pais, comprei algumas aves e comecei uma pequena criação em terras rondonienses. Devido à longa distância entre a fazenda e a cidade, bem como à dificuldade de acesso a internet, eu só fazia vendas locais. Até que um dia eu postei fotos de alguns frangos no Facebook e aquilo virou febre. Gente do país inteiro me procurou. Foi aí que a atividade se tornou a minha principal fonte de renda”, conta. “Certa feita, estava indo pra Rio Verde/GO com o dinheiro contado para comprar umas aves. Uma ambulância me fechou na estrada e bati feio. Na volta, triste e sem recursos pra consertar a caminhonete, lá pras bandas de Uberaba e Uberlândia, vi uma placa de leilão de gado, daí pensei: se tem remate de bezerros, vou criar um só de frangos! Como morava no Nortão, pedi para um amigo mineiro criar um grupo pelo Whatsapp. Em princípio, os animais que eu havia pago R$ 300,00 vendi por R$ 100,00, daí compreendi que tinha que comercializar somente os melhores”. O negócio prosperou, Pedrinho voltou para Minas e hoje está contente com as escolhas. “O momento atual é bom e a turma do cavalo percebeu os diferenciais dessas aves grandes, por isso resolveram complementar a renda dos haras com elas. Agora, como toda lida rural, tem as suas dificuldades: é preciso gostar dos bichinhos”.

Foto cedida
Pedro Ribeiro com Megatron, um dos galos mais cobiçados do país

O Índio Gigante se destaca pelo porte. Em sua formação foram utilizados cruzamentos de galinhas caipiras com o Combatente Brasileiro (que também é “tri-cross”) mais as raças Malaio (gigantismo) e Shamo (postura ereta). É um produto genuíno do Brasil, com grande potencial para exportação. Tem apelo comercial tanto no mercado ornamental como no de produção.

“O Índio Gigante é um melhorador, cuja função é cruzar com as demais raças para resultar num produto final precoce, de carcaça maior e mais pesada”, dizem os irmãos Haroldo e Diogo Poliselli, do Criatório Diamante, em Jaguariúna/SP. Eles são filhos de Valdomiro Poliselli Júnior, tradicional agropecuarista. “Nossa seleção avícola segue os princípios que o Grupo VPJ aplica há 20 anos no melhoramento genético de bovinos Angus, Brangus e Red Brahman; ovinos Dorper e White Dorper, e equinos Quarto de Milha, ou seja, sempre em busca da excelência”, afirmam os jovens criadores, que em breve (ainda a definir) realizarão o II Leilão Diamante Índio Gigante. “Venderemos netos do Pajé da Diamante, animais de qualidade superior, oriundos da mesma família do Canário (1,24m) e da Viola (1,06m)”. Os irmãos revelam: “Em três anos, amadurecemos como selecionadores e empresários. Aprendemos todo o ciclo da Avicultura, desde os acasalamentos, os nascimentos e os cuidados até a prevenção de doenças e a formatação das planilhas de custos e a comercialização. Se uma galinha fica doente, não dá pra deixar pra depois. É preciso agir com rapidez e, se possível, antever os problemas”. E eles querem mais: “Não fazemos testes. Buscamos o melhor da relação altura versus tamanho, por isso criamos formas de seleção que assegurem a alta performance”.

Fotomontagem / Fotos cedidas
Irmãos Poliselli – em busca da excelência na criação animal

O veterinário Guilherme Lopes da Silva, do Criatório Golden Cock, em Bragança Paulista/SP, é mais um exemplo de sucesso da parceria cavalo x aves. “Sou amante das provas de trote, invisto há anos na seleção de American Trotter. A correlação que faço entre as duas atividades é a paixão em evoluir. No meu caso, tenho como característica buscar o melhor. Sempre tive o cuidado em chegar a excelentes trotadores e, agora, quero ter a cabeceira do Índio Gigante”. E o começo da criação? “A vontade em ter aves de terreiro (galinha caipira) sempre existiu devido às doces lembranças da infância. Porém, a falta de espaço era um impeditivo. Há cinco anos eu presenteei a minha sogra com alguns exemplares e, no ano passado, com a compra de uma propriedade, coloquei a paixão em prática. É um lazer e uma terapia. Faço questão de pessoalmente cuidar, zelar e limpar. Não tenho funcionários”. E quanto ao futuro, ele diz: “trabalharei para que essa terapia dê retorno financeiro. Da mesma forma que hoje a raça de cavalo que amo se transformou em meu trabalho e sustento, farei com que o IG torne-se um ganha-pão”.

Fotomontagem / Fotos cedidas
Guilherme Lopes e família, paixão por American Trotter e Índio Gigante

Também apaixonado pelas provas de trote, o criador Mauro Loureiro, do Criatório Loureiro, em Jarinu/SP, diz que o êxito de toda atividade que engloba a criação animal depende daqueles que estão envolvidos. “Comprei as primeiras aves do Pedro Ribeiro, da família Poliselli, do Glaudson Delfior, do Filipe Godinho e do Carlos Baduí, ou seja, pessoas boas”, conta Maurinho, que junto ao pai, Valter, mantém a atividade como lazer. “Mas é um hobby que dá dinheiro. Tem coisa melhor? A nossa criação ainda é nova, porém, já nas primeiras vendas conseguimos equilibrar as contas do haras, uma vez que o negócio com equinos é sempre mais dispendioso. Então, penso que cavalos e Índio Gigante podem e devem caminhar juntos”. Ele ressalta o célere processo da avicultura, que confere giro de capital rápido. “Recomendo a quem pretende investir. Não vejo como dar errado. Mas, acima de tudo, devemos amar e respeitar os animais. Sempre contar com a proteção divina, pois só com a intervenção Dele é que a nossa criação se mantém saudável e próspera”.

Incremento genético e melhorias nas condições sanitárias (manejo e nutrição) resultam na evolução da produção de ovos e carnes no Brasil. Este e outros assuntos serão abordados no I Encontro de Criadores de Índio Gigante, organizado por Pedro Ribeiro, que acontecerá nos dias 30 de junho e 1° de julho, no Hotel Fazenda Santa Helena, em Guaxupé/MG. “O evento contará com diversas palestras, dentre elas sobre exames de DNA, bem como terá a edição especial do leilão do meu criatório, com 35 lotes do mais alto nível”, diz o organizador. “Criadores de várias regiões do país já confirmaram presença”.

Divulgação
Incremento genético e melhorias nas condições sanitárias serão temas abordados no encontro em Minas Gerais

Um dos maiores investidores em cavalos Quarto de Milha de Corrida na atualidade, Wagner de Souza, titular do Haras Brasil, em Sorocaba/SP, também está firme na criação de Índio Gigante. Em setembro do ano passado, ele comprou os dois atuais recordistas de preço em leilão, o galo Loukura de Guareí (R$ 75 mil) e a galinha Madona de Guareí (R$ 42 mil). “O Baianinho (Wagner) é um amigo que o IG me trouxe. Um dia ele visitou o nosso criatório com o intuito de comprar frangos para abate, a fim de levar para o pessoal do haras comer. Ele ficou impressionado com o tamanho dos nossos animais, bem como se entusiasmou pelos preços de venda praticados. Daí, participou de um primeiro leilão virtual, adquirindo alguns produtos, e no nosso remate presencial ele veio forte”, conta Filipe Godinho, do Criatório Guareí, em Guareí/SP. No referido pregão, Wagner não economizou e comprou diversos animais, fazendo investimentos na ordem de R$ 350 mil.

“O Quarto de Milha e o Índio Gigante têm tudo a ver. Tanto é que eu fiz parceria com o Haras Brasil em alguns cavalos e pretendo participar das corridas no Jockey Club de Sorocaba. É uma relação comercial saudável, em via de mão dupla”, diz Filipe Godinho, que deixou a pecuária bovina de leite para se dedicar com força total ao IG.

Foto cedida
Filipe Godinho com Loukura de Guareí, o galo de R$ 75 mil

Fico feliz com o fato de o pessoal do cavalo vislumbrar na criação de IG uma renda secundária para os haras. No entanto, penso que o maior nicho de mercado seja o pequeno e o médio produtor rural. Num Brasil de tantas mazelas e dificuldades, com a política e a economia fragilizadas, os sitiantes têm que fazer malabarismos para manter as contas no azul. Uma boa alternativa de combate à crise é a criação de IG, haja vista que o custo de manutenção é baixo e o mercado tem respondido positivamente à compra de ovos e pintinhos, fazendo com que o negócio seja superavitário. Outro dia um experiente criador me falou o seguinte: “imagine se em cada terreiro de galinha caipira (milhões por todo o Brasil) seja introduzido um galo Índio Gigante, que fará o melhoramento genético dessas aves, os mais simplórios produtores rurais dos longínquos rincões do país lucrarão com a atividade”. Corroboro dessa ideia. Só faço uma ressalva: o momento é alvissareiro, por isso os criadores têm que buscar a união, visando a padronizar os critérios de seleção, aumentando o potencial genético das aves, sempre com acurácia. Além disso, informação de alta qualidade tem que estar disponível aos novos interessados, num amplo trabalho de Comunicação e Marketing. Em resumo, faz-se necessário trabalhar com seriedade, comprometimento e amor em prol do bem-comum.

Jornalista e leiloeiro rural. Especializado em Agronegócio, com pós-graduação em Marketing e Comunicação Publicitária.
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