Sentimentos e gestos equinos

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Os cavalos percebem as linguagens verbal e não-verbal. Para se fazerem compreender, eles utilizam olhares, sons, sinais e comportamentos como resposta aos nossos estímulos

Quem disse que cavalo dado não se olha os dentes? O velho ditado não se aplica hoje em dia, pois, assim como nós, os equinos também precisam de cuidados odontológicos, haja vista que podem apresentar cáries, mal posicionamento dentário, desgastes excessivos, pontas e até dentes extras. Quando algum desses itens se manifesta, eles não conseguem mastigar adequadamente, por isso, comem menos e perdem massa corporal. Por causa da dor, eles podem se tornar agressivos ou apáticos. Saiba mais:

Como prevenção, os equinos devem ser examinados regularmente por veterinário especializado. Devemos nos atentar à mastigação deles, observando se não há salivação excessiva, sangue na boca e se grãos inteiros aparecem nitidamente em suas fezes, sinais de que existem ínguas ou pontas extras nos dentes, machucando a parte interna da boca, prejudicando a mastigação e a completa digestão. Tais dificuldades devem ser devidamente tratadas e solucionadas, pois causam inúmeros prejuízos à saúde do animal. Em casos mais avançados, a má digestão pode ocasionar em cólicas, levando o animal a óbito.

Vou explicar de uma forma bem simples: além da dor de dente existem outras causas que dificultam a mastigação dos cavalos. Uma delas é bastante curiosa, o fato de os dentes dos equinos não pararem de crescer. Isso mesmo! Tal particularidade se chama “erupção contínua”. Mas como a Natureza é sábia, na época em que os cavalos ainda não eram domesticados e se alimentavam em diferentes pastagens, os dentes deles sofriam desgaste intenso durante o pastejo. Como os seres humanos mudaram completamente os hábitos e os padrões alimentares dos equinos, depois da domesticação e do confinamento, a ração, o feno, o milho, a aveia e a pastagem cultivada passaram a não causar o mesmo desgaste aos dentes do cavalo, uma vez que o animal passou a fazer com menor frequência o movimento de selecionar, colher e até mesmo arrancar o capim do solo. Desta forma, como os dentes dos equinos crescem cerca de 03 mm por ano, as pontas excessivas passaram a machucar a boca do animal, formando feridas na bochecha e língua.

Sendo assim, é fundamental que, periodicamente, os animais sejam acompanhados por veterinário, que realizará o desgaste e o nivelamento dos dentes, eliminando as pontas que prejudicam a mastigação. O profissional, além de diagnosticar e tratar da saúde da boca do animal, também prevenirá doenças. A odontologia equina é uma especialidade relativamente nova dentro da Medicina Veterinária e já se tornou essencial na rotina da maioria absoluta dos haras.

Proprietários e treinadores estão cada vez mais valorizando os exames e os tratamentos dentários dos animais porque já constataram que a saúde bucal tem tudo a ver com a saúde completa do cavalo. O equino passa, em média, 18 horas por dia se alimentando. Com dentes saudáveis, ele consegue triturar melhor os alimentos e aproveitar todos os nutrientes da comida durante a digestão, pontos que atuam diretamente em sua fisiologia, melhorando, inclusive, o seu desenvolvimento e até o desempenho esportivo e reprodutivo.

Respeito e amor
Você já se perguntou se o seu cavalo tem sentimentos? Ao contrário dos seres humanos, os equinos não sentem dificuldade em expressar as suas emoções. Eles têm percepção das nossas linguagens verbal e não-verbal: utilizam gestos, olhares, sons e comportamentos como resposta. Se procurarmos entender o que eles expressam através de certas vocalizações e atitudes, estreitaremos o relacionamento e criaremos vínculos com eles.

Norberto Cândido
Ao contrário dos seres humanos, os cavalos não sentem dificuldade em expressar suas emoções
Ao contrário dos seres humanos, os cavalos não sentem dificuldade em expressar as suas emoções – sublime amor

A boa relação do cavalo com o cuidador, criador ou cavaleiro depende exclusivamente de três ingredientes: carinho, atenção e respeito. Quando os animais se apegam às pessoas com as quais convivem, eles desenvolvem um vínculo que se assemelha ao amor incondicional. A lealdade, a confiança e a proteção passam a fazer parte da relação. Eles reconhecem o cheiro, memorizam a voz, os gestos e até os hábitos das pessoas com as quais criam tal ligação. 

Segue o passo a passo para que a interação cavalo-cavaleiro aconteça de forma tranquila e segura: movimente-se devagar; aproxime-se do cavalo pelas laterais e não pela frente; mantenha certa distância até ser bem-vindo; fique imóvel e aguarde que ele autorize a sua aproximação; o sinal ficará verde assim que você permitir que ele o cheire; tente acariciar as suas costas. Se o cavalo se afastar quando você tentar tocá-lo é sinal de que você está se movimentando rápido demais. Então, recomece todo o processo.

Aprenda a ler as expressões e os movimentos do seu cavalo para interpretar como ele está se sentindo. Essa leitura ajuda a evitar acidentes quando ele estiver assustado ou aborrecido. Os equinos costumam expressar os seus sentimentos através de várias partes do corpo: orelhas, focinho, olhos, pernas e rabo. Numa próxima coluna abordarei os sinais da linguagem não-verbal dos equinos e os sons emitidos por eles.

A quantidade de tempo que precisamos para nos tornarmos amigos dos cavalos depende da frequência e da qualidade desses encontros, assim como da personalidade e da idade de cada animal. Cavalos jovens se apegam rapidamente, confiando no cuidador em questão de semanas. Já os mais velhos precisam de mais tempo. Assim como nas amizades entre os seres humanos, no relacionamento com o cavalo há bloqueios a serem quebrados. Quando isso acontece, eles nos respeitam e são leais pelo resto de suas vidas.

No mundo dos cavalos, o respeito corresponde ao amor incondicional. Por isso, quando me perguntam se os cavalos têm sentimentos, eu sempre respondo que todo animal se torna aquilo que aprende e recebe. As reações que expressam diante de diferentes vivências e acontecimentos podem, sim, ser chamadas de sentimentos. Por que não?

Gestos e sinais
Identificar e observar alguns dos principais sinais da comunicação equina melhora a qualidade do nosso convívio e nos aproxima. Os cavalos são extremamente sensitivos. Expressam o que sentem e se comunicam através de movimentos, sinais, gestos e sons. Observando as posições e os movimentos de cabeça, olhos, orelhas, narinas, boca, membros e cauda, somados aos diferentes sons emitidos, compreendemos de forma clara o ânimo, o humor, o desconforto, a excitação, a aprovação, a concentração, o medo, o cansaço, o estado de alerta, o nível de atenção, a manifestação dos instintos e até as necessidades fisiológicas dos equinos. Então vamos conferir alguns desses sinais?

Abanar a cabeça quando está solto no pasto – sinal de brincadeira.
Abanar a cabeça quando está sendo treinado – desconforto.
Balançar a cabeça para baixo, emitindo roncos ou relinchos – demonstra aprovação ou tentativa de chamar a atenção.
Olhos semicerrados, orelhas para trás e animal cabisbaixo – pode significar tristeza, mau humor, dor, febre ou outro problema de saúde.
Olhos esbugalhados – medo e ameaça.
Olhos fechados – hora da soneca. Geralmente os cavalos dormem em pé, com os olhos quase ou totalmente fechados.
Narinas dilatadas – se o animal soltar o ar com força pelas narinas significa estado e sinal de alerta, excitação ou vontade de chamar a atenção.
Narinas enrugadas – aborrecimento.
Lábio superior levantado – em garanhões significa que estão sentindo quando as éguas estão por perto. Concomitantemente a este movimento, levantam a cabeça, fecham as narinas e forçam a respiração, evidenciando o estado de excitação.
Dentes expostos – sinal de ameaça.
Ato de mordiscar – demonstra brincadeira.
Orelhas para o lado – o cavalo se encontra relaxado. Ou também pode estar apático.
Orelhas completamente para trás – pode significar irritação e agressividade. Durante o trabalho, evidencia cansaço e indisciplina.
Orelhas para a frente e eretas – indicam que o cavalo está atento, curioso e interessado. Normalmente apresentam, em conjunto, as narinas dilatadas.
Escavar – mostra o desejo de achar e receber algum alimento. Ou também pode ser tédio.
Patas dianteiras esticadas para frente – nos machos indicam a preparação para urinar.
Uma das patas levantadas com meia ponta do casco apoiado – significa que o animal está descansando.
Abanar a cauda – sinal de irritação ou desconforto.
Mover a cauda contra o corpo – movimento para espantar moscas e outros insetos.
Manter a cauda elevada – sinônimo de prazer e excitação. Éguas, também apresentam a elevação da cauda, acompanhada de jatos de urina e reversão dos lábios vulvares quando estão no cio, demonstrando aos garanhões que estão aptas ao cruzamento.
Relincho – som longo, alto e agudo, usado para chamar a atenção de algo ou de alguém. Serve para indicar a sua localização – os potros relincham quando estão longe da mãe.
Resfôlego – saída de ar pelas narinas. Limpeza das vias respiratórias, aumentando a oxigenação. É também usado para alertar outros animais de algo novo ou ameaçador.
Sopro – é uma forma de relinchar feito apenas com as narinas. Som amigável, como se fosse um cumprimento do cavalo. É comum o tratador entrar no estábulo e ouvir o “bom dia” do animal estabulado através deste som.
Suspiro – saída longa de ar pelas narinas, que demonstra angústia, mal-estar ou tédio.

Flávia Raucci Facchini é Diretora de Marketing do Haras Três Rios, criatório de cavalos da raça Mangalarga, localizado em Itatiba/SP, com 40 anos de tradição.
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4 COMENTÁRIOS

  1. Acompanho todas as matérias da Flávia Raucci Facchini! Muito bom! O saber não ocupa espaço, ninguém lhe rouba e ele ainda rompe barreiras!

  2. Que alegria, Paulo! Eu também o acompanho e sou sua fã! Muito gratificante ler o seu depoimento. É sinal de que a coluna está cumprindo a sua principal missão: informar, atrair e reunir apaixonados por cavalos. Um grande abraço!

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