Problemas comportamentais dos pets

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Cuidado - abraçar e proteger demais cães que têm medo de fogos e trovões pode reforçar o comportamento indesejado

O desafio é aprender a nos comunicar melhor com as outras espécies, tendo amor e respeito, sabendo que a mente do nosso bichinho funciona de maneira diferente da nossa

Esta coluna “Meu Pet” aborda um assunto que ainda gera muitas dúvidas. Cães e gatos costumam apresentar inúmeros problemas comportamentais ao longo de suas vidas e cabe aos veterinários e tutores saberem identificar e tratar os mesmos. Algumas dessas complicações são relativamente comuns e simples, geradas por erros de manejo e falha no ambiente onde vivem, sendo bem simples as suas respectivas resoluções. Há alguns fatores mais complexos, que envolvem, além de erros nos cuidados diários, agravantes genéticos e até problemas de saúde. Conheça os quatro mais comuns:

1. Urina e fezes em locais inapropriados
Cães logo que vão para um novo ambiente sentem necessidade de demarcar o território para reconhecimento do local e ao mesmo tempo farejar outros indivíduos para obter informações sobre os mesmos, como idade, sexo e status reprodutivo. Perfeitamente normal. Entretanto, temos a necessidade de que eles aprendam que o tapete da sala não é o melhor lugar para que eles façam suas necessidades! Animais, mesmo adultos, podem ser ensinados a urinar e a defecar em locais pré-determinados com um pouco de treino e muito carinho. Já os filhotes devem ser educados logo no início da convivência, doutrinados a utilizarem determinados locais para tais finalidades. Isso exige paciência e repetição por parte do proprietário. Animais com incontinência, demência (devido à idade avançada), infecções urinárias e fêmeas no cio podem procurar locais “estranhos” para fazer suas necessidades fisiológicas. Causas físicas devem ser descartadas antes de chegarmos à conclusão de que o problema é puramente comportamental. A observação é importante.

Dica – estabeleça um local para que o animal urine e defeque, de forma que ele tenha privacidade e acesso a qualquer hora do dia; recolha as fezes o mais rápido possível e recompense-o quando acertar. Podem ser utilizados jornais, tapetes ou caixas higiênicas, além de produtos odoríferos disponíveis no mercado para essa finalidade. Após a alimentação é muito comum que o animal tenha vontade de urinar ou defecar, então, desde filhote, já leve o seu cãozinho até o local designado para tal finalidade e espere que ele faça, recompensando-o com um petisco ou carinho quando acertar. É muito mais efetivo reforçar um comportamento de forma positiva do que punir quando ele errar.

Foto cedida
O filhote, assim que chega na casa, já deve ser educado a fazer suas necessidades em locais apropriados
O filhote, tão logo chegue ao tutor, já deve ser apresentado às regras da casa

2. Ansiedade da separação
Outro problema que nos deparamos com muita frequência é a ansiedade da separação. Animais que são deixados sozinhos em casa desenvolvem comportamentos destrutivos: portas arranhadas, objetos destruídos, latidos constantes e muitas vezes chegam a se machucar quando percebem o distanciamento iminente. É um dos problemas comportamentais mais difíceis de serem resolvidos. Em muitos casos, faz-se necessário o uso de medicamentos e até o trabalho de terapia comportamental, ou seja, treinamento por tempo longo, o que é imperativo para o sucesso do que se deseja.

Dica – esse tipo de comportamento, na maioria das vezes, é reforçado pelo tutor, que acaba tendo todo um ritual de “despedida” e apego no momento de sair de casa. A volta para o lar é outro fator de complicação… o ideal é entrar sem fazer festinha e no momento que o animal estiver tranquilo e calmo partir para o afago. Evite demonstrar para o animal que você está saindo. Pegue as chaves do carro e não saia, troque de roupa e fique no sofá, entre e saia pela porta rapidamente sem que dê tempo de o pet se desesperar. Essas são técnicas chamadas de dessensibilização, que funcionam melhor nesses casos.

3. Ataque predatório contra outras espécies
Não é incomum nossos gatos aparecerem com o pássaro do vizinho na boca ou o cãozinho matar as galinhas alheias e até mesmo o porquinho da índia que convivia com ele. O comportamento predatório é o mais difícil de ser controlado e eliminado. Simplesmente porque é primitivo, está no código genético do animal e é ativado pelo movimento da presa. Muitas vezes a recompensa de caçar e apresentar o comportamento instintivo é muito maior e mais prazeroso do que a represália posterior. Mesmo assim, é possível melhorar e controlar o instinto selvagem do pet, mas isso também demanda muito treino. Não adianta castigar ou punir o animal depois do ocorrido. Afinal, se não fosse o instinto de caça, espécies de predadores não mais estariam habitando a terra neste exato momento.

Dica – não puna o animal após o ocorrido, pois ele não irá entender o castigo e, portanto, não surtirá efeito positivo. Compreenda que está na natureza do animal ser predador. Tente isolar o animal para que o comportamento não ocorra e procure ajuda de adestradores para desenvolver um treino que evite o comportamento indesejado.

Foto cedida
Gatos possuem instinto de caça extremamente aguçado, o que torna o comportamento predatório mais difícil de ser controlado
Comportamento predatório – gatos possuem instinto de caça extremamente aguçado

4. Medo de trovão ou rojão
Este é outro grande problema comportamental que, em muitos casos, o animal fica aterrorizado, vindo a urinar, defecar, machucar-se e até perder os sentidos por causa do medo. Normalmente, o comportamento de medo é reforçado pelos tutores no momento em que esses animais são “protegidos” com abraços e excesso de zelo. Parece cruel falar isso, mas o ideal é que você demonstre calma e tire o foco da atenção, mostrando ao seu animalzinho que não há o que temer, que se trata apenas de um barulho.

Dicas – brincadeiras, música e recompensas podem ser utilizadas com a finalidade de terapias de dessensibilização – sons gravados de trovões e rojões em intensidades menores, sendo aumentados progressivamente até que o animal perca o medo. Nunca é fácil, exige paciência e um tempo maior de treino, porém não é impossível de resolver.

Os problemas comportamentais de cães e gatos são inúmeros e na maioria das vezes possuem uma explicação lógica, sendo passíveis de resolução. Todavia, devemos sempre excluir causas físicas e instintivas, doenças concomitantes, entre outras, para obter sucesso no tratamento. Profissionais qualificados podem ser de grande valia para diagnosticar e realizar as terapias comportamentais com adestramento. Muitas vezes, além dos treinos periódicos, são necessários medicamentos alopáticos, florais, fitoterápicos e mudança do animal do ambiente onde vive. Evite punir o pet de forma rigorosa, principalmente se o comportamento ocorreu há minutos atrás, pois a memória em relação a esses eventos é muito curta e o animal não consegue correlacionar o castigo com o ocorrido, o que pode piorar a situação. O desafio é aprender a nos comunicar melhor com as outras espécies, tendo paciência, amor e respeito, entendendo que a mente do nosso bichinho funciona diferente da nossa e que as necessidades de cada indivíduo variam bastante. :)

Médica veterinária - graduação (2003), residência e mestrado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu; Área de atuação em Anestesiologia, Acupuntura e Terapias complementares.
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